Vênus, o Planeta Mais Quente

Desde a era babilônica, passando pelos antigos egípcios, até o apogeu dos gregos e dos romanos, que o planeta Vênus é relacionado ao amor e à beleza. Como terceiro objeto mais brilhante na abóbada celeste, capaz inclusive de projetar sombras aqui na Terra, Vênus era admirado sempre que aparecia no céu. Por isso fora batizado com o nome da deusa romana do Amor, Vênus, aquela que encarnava todos os maiores atributos femininos como o charme, a sedução, o sexo e a fertilidade. Sua presença nos céus influenciava rituais, decisões de guerra e ciclos de plantio, encantando os homens com seu brilho mágico.

É normalmente antes do amanhecer ou depois do anoitecer que Vênus desponta no céu. Mais brilhante do que as estrelas ao seu redor, apresentando uma magnitude que só é superada pelo brilho da Lua e do próprio Sol, Vênus realmente chama a atenção, sendo até mesmo confundido com uma estrela. Por esse motivo, acabou recebendo nomes populares como “estrela matutina” ou “estrela vespertina”. Por causa desse comportamento – ora aparecendo antes do Sol nascer, ora aparecendo depois que o Sol se põe – que os antigos, principalmente os sumérios e os babilônios, acreditavam tratar-se de dois corpos celestes distintos.


Vênus, a "estrela" D'alva.

Em 500 a.C., o filósofo e matemático grego Pitágoras percebeu que aquelas duas “estrelas” eram na verdade o mesmo corpo celeste, o planeta Vênus. As densas nuvens presentes no planeta refletiam tanto a luz do Sol que pouco podia ser observado desse astro com os instrumentos disponíveis naquela época. Foi apenas no século XVII, através do advento dos telescópios, que novas informações começaram a ser desvendadas. O astrônomo italiano Galileu Galilei, por exemplo, descobriu que Vênus apresentava fases como a nossa Lua. E foi a observação do fato de Vênus alterar suas dimensões à medida que se deslocava na abóbada celeste durante seu ciclo que Galileu pode reforçar seus argumentos em defesa do Heliocentrismo, pois tal aspecto revelava que o planeta girava ao redor do Sol.

Nos séculos seguintes, os astrônomos tentaram descobrir através de diversos artifícios maiores detalhes sobre a superfície de Vênus. No entanto, o brilho intenso do planeta escondia seus segredos, instigando a curiosidade dos cientistas como a deusa do amor que seduz os mortais através de seu véu de mistério. Nem mesmo com o surgimento das fotografias na astronomia foi possível revelar os detalhes mais íntimos de Vênus. Os registros fotográficos ajudaram bastante na revelação de vários aspectos de outros astros, mas pouco serviram ao estudo do que existe por trás da cortina de segredos de Vênus. Eles apenas reforçaram a informação de que naquele planeta existem nuvens espessas e densas.

Durante o século XX, as sondas espaciais lançadas tanto pelos Estados Unidos quanto pela antiga União Soviética, conseguiram enfim desvendar os mistérios tão bem guardados de Vênus. Ao entrarem na órbita do planeta, as sondas puderam mapear a superfície através de fotografias e detectores de ondas de rádio, ultravioleta e infravermelho. Além disso, muitas sondas foram programadas para adentrar a atmosfera venusiana, dirigindo-se para a superfície do planeta a fim de captar informações mais precisas e detalhadas. Todas as informações de relevo e atmosfera que existem hoje sobre Vênus são provenientes dessas sondas que, apesar de terem conseguido obter sucesso em suas missões, não duraram muito tempo por lá devido às agressivas e severas condições ambientais do planeta.

Entre 1975 e 1995, as sondas Venera da União Soviética e as sondas Magellan e Pioneer Venus dos Estados Unidos, coletaram os principais dados que os cientistas hoje dispõem sobre a superfície do planeta Vênus. Lançada em 8 de junho de 1975, a sonda soviética Venera 9 tinha como missão pousar em solo venusiano e captar imagens locais para enviá-las à Terra. Meses depois, na data de 22 de outubro de 1975, a sonda aterrissou em Vênus e, sob um Sol a pino, conseguiu registrar a primeira imagem de um terreno venusiano antes de pifar devido ao calor escaldante. Na foto preta e branca, podem ser vistas diversas rochas semi-enterradas com formatos angulares e o horizonte ao fundo. Apesar de parecer tão pouco, a ousadia trouxe à tona revelações exclusivas daquele misterioso planeta e permitiu melhorar o planejamento dos outros lançamentos. Logo, o feito foi seguido por outras missões bem sucedidas que puderam mapear em detalhes a inclemente superfície venusiana. Dentre as várias imagens que foram produzidas por sondas, os cientistas puderam perceber que Vênus apresenta uma crosta formada por rochas semelhantes ao basalto, de origem vulcânica, além de sedimentos finos como grãos de areia e terra.


Sonda Pioneer Venus, lançada pelos EUA em 1978.

Um mapeamento mais completo e preciso só pode ser feito a partir do envio de sondas orbitais como a Magellan, lançada pelos Estados Unidos. Essas sondas conseguiram mapear a superfície do planeta graças a radares de abertura, pois uma observação direta através de instrumentos ópticos não era possível devido à espessa atmosfera. No ano de 1994, a Magellan havia mapeado detalhadamente 99% da superfície venusiana, quando então foi desativada e programada para cair no planeta. Seus registros mostram que Vênus possui uma crosta repleta de montanhas, planícies, cânions, vulcões e crateras de impacto.

Geologicamente, Vênus é um lugar agitado. Milhares de vulcões já foram identificados e cerca de 85% de sua superfície está coberta por rocha vulcânica. Muitos desses vulcões são imensos, possuindo mais de 100 quilômetros de diâmetro e mais de mil metros de altitude. Além disso, são encontrados diversos canais abertos por rios não de água, mas de lava incandescente. O maior deles atravessa 7.000 quilômetros, sendo mais comprido que o rio Nilo, na África. Crateras de impacto também são numerosas, revelando que o planeta já foi atingido por grandes meteoros.


Cratera de impacto na superfície de Vênus.

As sondas também conseguiram realizar uma análise minuciosa da atmosfera de Vênus. O planeta é quase que totalmente coberto por nuvens densas e pesadas que são capazes de refletir cerca de 75% da luz do Sol. As nuvens são constituídas basicamente por dióxido de enxofre e dióxido de carbono em altas concentrações, o que gera o mais poderoso efeito estufa do Sistema Solar. Tanto que a temperatura média na superfície de Vênus é de 480ºC, conseguindo ser maior do que a de Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Além disso, a densa atmosfera possui uma pressão 92 vezes maior do que a da Terra, semelhante aquela verificável em profundidades oceânicas de mais de um quilômetro. Imagine as temperaturas e pressões violentas que essas sondas tiveram que suportar antes de serem destruídas.

Em relação à água, Vênus é um planeta carente desse composto. Lá não existem oceanos ou rios e as quantidades de vapor d’água na atmosfera são quase insignificantes. Por causa da proximidade com o Sol, os cientistas acreditam que ele teria perdido grande parte de sua água por um processo de dissociação, o qual teria espalhado o hidrogênio para o espaço exterior junto com o vento solar.

Um aspecto curioso a respeito de Vênus é seu movimento de rotação retrógrado. Diferente de todos os outros planetas do Sistema Solar, Vênus gira de leste para oeste. Se estivéssemos em Vênus e se não existissem tantas nuvens pesadas por lá, veríamos o Sol nascer no oeste e se por no leste. A hipótese mais aceita para explicar isso é que talvez Vênus tenha sido atingido por outro corpo celeste durante sua formação. Por causa desse estranho movimento retrógrado, um dia em Vênus é mais longo que um ano. Enquanto uma translação completa se faz em 225 dias terrestres, a rotação se completa em 243 dias terrestres.

Vênus apresenta uma órbita inclinada em 3,4º em relação à órbita da Terra, o que acaba fazendo com que ele normalmente não passe na frente do Sol quando está alinhado com nosso planeta. No entanto, de vez em quando Vênus atravessa o plano orbital terrestre, permitindo que possamos vê-lo passando diante do disco solar. É o chamado trânsito de Vênus. Normalmente, os trânsitos acontecem aos pares, com oito anos de diferença entre cada um. Esses trânsitos ocorrem em ciclos de 243 anos, onde cada par só acontece novamente após um longo intervalo de 105 anos ou mais. O último par de trânsitos ocorreu entre 2004 e 2012.


Terra e Vênus, planetas irmãos.

Apesar de tantas peculiaridades e apresentar um cenário tão inóspito e desolador, Vênus é o planeta irmão da Terra. Com tamanho, massa, densidade e constituição similares aos da Terra, Vênus é classificado como um planeta do tipo terrestre ou rochoso, sendo o único, em todo o Sistema Solar, com características tão parecidas com as do nosso planeta. Além disso, é nosso vizinho mais próximo. Em seu movimento ao redor do Sol, consegue se aproximar de nós quase 40 milhões de quilômetros, aparecendo no céu como o terceiro corpo celeste mais brilhante. Suas características permitiram aos astrônomos conhecer mais sobre as origens e transformações de nosso Sistema Solar. Bem como de nossa Terra.

 

Fabrício Proença

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Astronomia e Cosmologia