O Ponto de Mutação

O I Ching, antigo texto chinês, diz em um de seus trechos:

 “Ao término de um período sobrevém o ponto de mutação. A Luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força... O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano.”

Usando esse breve e profundo texto como premissa para seu livro “O Ponto de Mutação” (The Turning Point, 1983), Fritjof Capra - físico teórico de Berkeley, Califórnia - nos mostra que a atual crise que rodeia todos os setores da humanidade, desde a economia até o meio ambiente, representa uma oportunidade de mudança de paradigma na maneira como pensamos e entendemos o mundo. Podemos, enfim, perceber o quanto nos distanciamos do caminho (Tao na antiga tradição chinesa) ao dar prioridade a uma vida baseada em torno do individualismo e não da coletividade.

De uma maneira ampla, didática e clara, Fritjof Capra nos mostra como a ciência se desenvolveu com bases sólidas no pensamento newtoniano e cartesiano. Essa abordagem na maneira de enxergar a realidade levou a grande maioria dos pensadores ocidentais a defenderem valores materialistas, fazendo prevalecer o conhecimento racional em decorrência do intuitivo e fragmentando as disciplinas em setores afastados e isolados. A mente foi separada do corpo e este foi resumido a uma máquina com peças complicadas. O homem passou a ter poder sobre o mundo, manipulando e alterando suas partes. Dentro desse contexto, foi estimulada a competitividade e a exploração da natureza como atributos dignos, responsáveis pelo sucesso e progresso da civilização.

Esse comportamento, que representa o paradigma estabelecido, nos conduziu a atual crise planetária e somente uma mudança drástica poderá solucioná-la efetivamente. Baseando seu argumento na sabedoria do taoísmo, Capra afirma que em nossa sociedade, o lado Yang – aquele que representa o princípio masculino, a agressividade, a expansividade e a capacidade intelectual e analítica - foi favorecido em detrimento do lado Yin, seu oposto no Tao, o ideal feminino, a prudência e a cooperação. Dessa forma, as atribulações que agora se manifestam sinalizam a real necessidade de despertar o princípio Yin e restabelecer o equilíbrio perdido.

Para isso, ele afirma que devemos entender os principais problemas de uma forma integrada e não como aspectos isolados. Assim, crises econômicas e políticas, problemas sociais, danos ao meio ambiente etc. podem ser entendidos como sintomas de uma mesma causa, uma deficiência na percepção unificada das coisas. A abordagem mecanicista e reducionista, que fragmenta o mundo em partes isoladas, não se apresenta mais adequada para solucionar nossas mazelas. Faz-se necessária, portanto, uma visão holística e sistêmica, conectando todas as diferentes disciplinas, para que juntas elas possam operar de maneira mais eficiente. Esse pensamento sistêmico deve ser entendido como uma conscientização de que o todo só pode existir se suas partes forem consideradas como algo único, integrado e interconectado. Somente assim, a humanidade poderá despertar efetivamente seu lado colaborativo, intuitivo, espiritual e sustentável.

Escrito de maneira fácil para o público em geral, “O Ponto de Mutação” tornou-se um best-seller e até hoje ainda pode ser considerado um livro de vanguarda. Isso porque desde aquela época, que ainda vivia sob o legado dos movimentos sociais e culturais dos anos 60 e 70, os sistemas de valores ocidentais ainda permaneceram os mesmos. Ainda enxergamos o universo como um sistema mecânico, o método científico como única forma de gerar conhecimento válido e a luta pela vida como uma competição acirrada pela sobrevivência. O pensamento sistêmico ainda nos parece uma utopia distante.

Mas Capra, com seu texto coeso e lúcido, nos apresenta o problema de forma tão evidente que parece que fomos arrancados de nosso mundinho para podermos enxergá-lo de fora. Quando voltamos, percebemos que algo deve ser feito para alterar definitivamente esse curso dos acontecimentos. E o livro descreve em pormenores a solução através dessa fascinante mudança para uma visão holística e sistêmica da realidade. Sua essência expressa o real significado da tão afamada e mal compreendida palavra da moda: a sustentabilidade. Por isso, a leitura de “O Ponto de Mutação” ainda seja tão importante em nossos dias, para qualquer profissional e em qualquer área do conhecimento. Pois ele nos oferece uma alternativa profunda de restabelecimento do equilíbrio em nossa forma de viver e de ser.

 

Fabrício Proença

*****************************************************************************

Seja vivo, seja natural

Resenhas